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O Deus apaixonado como caminho quaresmal!

Renaldo Elesbão

O Deus cristão é o Deus do amor (cf. 1Jo 4,8). “O amor é o ser de Deus, a vida de Deus, a essência de Deus” (STEIN, 2013, p.467). O caminho quaresmal é, por isso, o caminho da paixão (cf. Mc 8,34; Lc 9,51). Somente com amor-paixão é possível dar a vida. Assim, Jesus ofereceu toda a sua vida por amor. A paixão é o movimento interpessoal cuja meta é querer o bem sempre do amado (cf. Lc 23,43). Isso repousa sobre a lógica kenótica (despojamento) e pericorética (entrega) da Trindade (cf. Fl 2,6-8). Para Edith Stein a Trindade é o arquétipo do ser humano e de todas as criaturas. Porque o “Deus criou o homem a sua imagem. E Deus Criador é um Deus trinitário” (STEIN, 2013, p.460).

O Deus cristão é Uno-Trino. Por ser Deus-amor é relação interpessoal em si mesmo e fora de si mesmo. “Deus é como ele se mostra” (RATZINGER, 2012, p.123) e é Jesus quem mostra Deus. Em si Deus é comunidade perfeita onde acontece a entrega recíproca entre Pai e o Filho. A entrega total um ao outro é fundado no amor. “Com efeito, formam parte do amor um amante, um amado e enfim o amor mesmo” (STEIN, 2013, p.461ss).

Nosso Deus é, sem dúvida, aberto porque é amor e “o amor está sempre a caminho” afirmou o papa Francisco aos participantes do XIV Capítulo Geral dos orionitas. Por isso, “a fé é uma percepção de Deus” (STEIN, 2013, p.45). Signfica dizer que Deus é empático porque é perceptível. Essa é a base da revelação na teologia: Deus se revela. Com isso, o Deus que Jesus nos apresenta é um Deus pessoal porque ele se comunica conosco. Deus se abre ao ser humano para o divinizar. Porém, sua divinização é encarnação como foi a experiência kenótica de Cristo (cf. Jo 1,14).

Os seguidores de Jesus perceberam que ele era tão humano que só poderia ser Deus mesmo (cf. BOFF, 1972, p.123ss). Jesus é Deus porque amou. Seu amor foi vivido não na onipotência, isto é, na força, mas na fraqueza de um amor muitas vezes não correspondido (cf. Lc 22, 49-51). A pedagogia de Jesus era instigar a todos o melhor de si. Porque o melhor de si é sua humanidade que é divina em sua originalidade.

Jesus no evangelho de Marcos é apresentado como o Messias às avessas. Jesus confundia os fortes. “Quando Jesus lhes disse ‘Sou eu’, recuaram e caíram por terra” (Jo 18,6). O messias imaginário dava lugar ao Messias real. Jesus é o Messias real porque ele é humano. De modo que, “o Deus da criança deve ser catequizado pelo Deus de Jesus” (MORANO, 2014, p.130). O caminho quaresmal é o caminho do amor não onipotente porque a via da força nega a via do amor.

Assim, o Deus de Jesus não o salva da cruz porque é o Deus apaixonado. Sua paixão o deixa livre para amar. “‘Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?’” (Mc 15, 34). É próprio do amor mesmo amar livremente. Nisto consiste a fraqueza de Deus: Deus é amor. Contudo, quem ama pode não ser amado. Quem garante que o amado amará? Somente em Deus Uno e Trino o amor é perfeito. O Pai entrega todo ao Filho no Espírito Santo (cf. Lc 3,22). Essa relação se chama esvaziamento de si para o outro. Acontece aí uma passagem eterna da reciprocidade à circularidade formando a comunhão de pessoas divinas.

O amor de Jesus por nós é apaixonante. E paixão é loucura. “Os judeus pedem sinais, e os gregos andam em busca de sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus, é escândalo, para os gentios é loucura” (1Cor 1,22-23). Na cruz Jesus entrega-se todo ao Pai. “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46). “A oferta de Jesus ao Pai na morte é suprema oração” (CARRARA, 2014, p.204). A tese do padre Carrara é que essa entrega não é apenas a elevação a Deus, “mas uma elevação ao Pai” (p.197). O Pai, por sua vez, entrega todo ao Filho o ressuscitando.

O amor cristão é, de fato, um amor apaixonado. Aqui ocorre uma união íntima entre ágape e eros porque o amor é performativo, ou seja, ama amando, pensa fazendo, deseja querendo, perdoa cuidando. Por isso, a perfeição da lei é o amor porque envolve toda a realidade. Nesse sentido, “a verdadeira religião deveria nos libertar, tirar os nossos medos e não nos escravizar” (MELLO, 2009, p.80). A cruz de Cristo é o antídoto de uma imagem de um deus imediato e vazio.

A paixão de Jesus foi um amor a princípio não correspondido. Porém, desejos imediatos são infantis, próprio de um messianismo imaginário (cf. Lc 4,1-13). O amor é, com isso, paciente como um agricultor que espera a semente germinar. E germina silenciosamente (cf. Mc 4,26-28). Afinal, o Reino de Deus é pequeno para que possa crescer. E cresce na fragilidade de uma semente jogada na terra. A semente somos nós que devemos experimentar a Páscoa. A semente morre para nascer.

A páscoa de Jesus e nossa acontece como uma semente na terra. E a terra é a humanidade que se eleva com a força da ressurreição. A ressurreição é o presente do Pai àqueles que lhe são entregues. “Jesus não se eleva sozinho, mas eleva consigo a humanidade. Ele se encarna, vive, morre, e ressuscita para elevar consigo ao Pai toda a humanidade” (CARRARA, 2014, p.204).

Jesus uma vez oferecido no madeiro nos oferece como oração perfeita ao Pai. Jesus é nossa páscoa, nossa vida. “Se morremos com Cristo, temos fé que também viveremos com ele” (Rm 6,8). A morte, contudo, deve ser entendia como um movimento mais que biológico, mas também como a total entrega de si ao outro e isso é próprio do amor. Quem ama morre de amor pelo amado porque se oferece todo. O amor só é verdadeiro se for exagerado. Pois, no amor não se faz reserva.

Ora, Jesus revela o rosto misericordioso do Pai quando ama apaixonadamente. O Pai revela Jesus quando o ressuscita. E a ressureição é a entrega amorosa do Pai ao Filho. Esta dinâmica afetiva entre o Amante (Pai) e o Amado (Filho) se eterniza no Amor cujo Espírito Santo vivifica cristificando todas as coisas.

Jesus, portanto, revela o Deus apaixonado, ou seja, o coração de Deus pulsa de amor. O papa Francisco pontua que “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai” (MV, n.1). Os seguidores de Jesus somente o reconhecerá quando matar as imagens de um deus onipotente, guerreiro e se deixar toca pela paixão de um Deus misericordioso. O papa Francisco, nesse sentido, nos esclarece que “‘é próprio de Deus usar de misericórdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua onipotência’” (MV, n.6).

Esse foi o itinerário de Pedro: de um deus infantil e imaginário para o verdadeiro Deus de Jesus: o Deus apaixonado (cf. Jo 21, 15-17). Os cristãos entregam o sangue, não tiram o sangue. Em nenhum momento Jesus revelou um deus todo-poderoso. Se Ele o é, é porque foi amor. Somente o amor apaixonado é todo-poderoso porque é apaixonante. Sua força irradia a todos semelhante ao sol do domingo como “no primeiro dia da semana” (Jo 20,1).    


"Fazer o bem sempre,

o bem a todos e o

mal nunca e a ninguém"

São Luís Orione

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