
Quem contempla Dom
Orione, acha-se diante de uma personalidade marcante. O próprio Papa João Paulo
II reconhece: “É impossível resumir a riqueza do espírito de Dom
Orione, porque tinha um coração como o de São Paulo: terno e sensível até as
lágrimas; incansável e tenaz até a audácia; dinâmico até o heroísmo; viveu em
contato com os grandes homens da política e da cultura, iluminou os sem fé,
converteu pecadores, viveu recolhido em contínua oração,praticava incríveis
penitências”.[1]
Diante das
interrogações de seu tempo, Dom Orione soube dar respostas adequadas, que
compuseram aquilo que chamamos o carisma[2] orionita,
que deve, naturalmente, ser desenvolvido e atualizado.
Vamos deter-nos um pouco sobre alguns aspectos da rica espiritualidade
do nosso fundador que podem servir de inspiração para todos nós da família
orionita: religiosos/as e jovens.
a) Só Deus!
Dom Orione tornou-se um apaixonado de Jesus. Era
Jesus seu amor, profunda e substancialmente sentido em sua vida.
“SÓ DEUS! Um breve
lema, mas que traz dentro de si o resumo de toda a perfeição cristã”[3]
Quem viveu ao lado de Dom Orione, ficava
impressionado com seu espírito de oração. Temos que lembrar sua vida: um
verdadeiro homem de oração, que depois de um dia de serviço total ao próximo
era capaz de passar, muitas vezes, a noite inteira em oração diante do
Santíssimo Sacramento.
“O coração deste estrategista da caridade foi ilimitado,
porque se dilatou com a caridade de Cristo (Ibid.,102, 32). A
paixão por Cristo foi a alma da sua vida audaciosa, o impulso interior de um
altruísmo sem reservas, a fonte sempre fresca de uma esperança indestrutível.
Este filho humilde de um pedreiro proclama
que somente a caridade salvará o mundo" (Ibid., 62,13)
e a todos repete que a alegria perfeita não pode existir, senão na
perfeita dedicação de si mesmo a Deus e aos homens, a todos os homens"
(Ibidem).”[4]
b) A Cruz
Dom Orione abriu o primeiro oratório numa Semana Santa.
A primeira igreja onde conduziu seus garotos foi a igreja do Crucificado em
Tortona. Com um amor cheio de ternura ele pediu para si o grande crucifixo de
madeira que ali se venerava e o colocou no seu pequeno quarto, um
crucifixo enorme, que chamava atenção mais do que qualquer outro objeto.
“Eu fui crucificado com Cristo; não sou mais eu que
vivo, mas Cristo vive em mim...O Filho de Deus me amou e entregou-se por mim”.[5] São palavras de Paulo que exprimem perfeitamente oque sentia e
vivia Dom Orione.
A contemplação do amor de Deus por nós representado
pela cruz de Cristo,[6] é
a chave que nos permite entender a vida de muitos santos. “Viver;palpitar,
morrer aos pés da cruz ou na cruz com Cristo!”.[7] Dom
Orione, desde o princípio da congregação enxerga na cruz de Cristo a árvore de onde
brota a nova vida. “Jesus se segue de verdade, se ama de verdade
ese serve de verdade, na cruz”.[8]Da
capacidade que tem Dom Orione de encher-se de admiração e surpresa diante da
grandeza do amor de Deus é que nasce nele a necessidade de viver ele também do
amor de Deus. Ele se sente amado por Deus e toda sua vidase torna reflexo desse
amor.
c) Confiança na
Divina Providência
Para Dom Orione a fé
é o motor da História. Para que as lutas pela justiça social sejam efetivas e
tragam promoção ao homem, devem nascer da fé em Deus e acontecerem em nome
dele. “Avante, em nome de Deus”foi o brado de Orione em sua proclamação
às trabalhadoras dos arrozais. Essa convicção se baseava na fé na Providência
de Deus que conduz a História e, mesmo quando o caminho é escuro, o desígnio de
Deus não falha. Pois bem, essa certeza não tornava Orione passivo,nem
acomodado, pelo contrário ele acreditava que Deus se serve de nossa ação para
realizar sua obra no mundo. “Filho da Divina Providência quer dizer filho da
fé e jamais seremos filhos da Divina Providência sem uma vida toda de fé e confiança
em Deus”.[9]
d) Devoção
mariana
A devoção de Dom
Orione a Nossa Senhora é tão marcante como seu amor aos pobres. “Nós
veneramos e proclamamos Maria nossa Mãe e única Fundadora da Pequena Obra;
consideramo-la como a celestial inspiradora de todas as nossas atividades”.[10]
“Quanto bem fareis às
almas dos jovens, se acenderdes em seus corações a lâmpada do amor a Nossa
Senhora”.[11]
e) Amor à
Igreja
Em um momento
histórico marcado pela repulsa à autoridade da Igreja e anticlericalismo
(questão romana, maçonaria, jansenismo e liberalismo) Dom Orione reage pondo-se
decididamente do lado da Igreja e do Papa. “Ó Santa Igreja Católica,
Igreja de Jesus Cristo, luz, amor, mãe doce e querida! Mãe de nossas vidas,
encanto dos nossos corações, vida de nossas vidas!”[12]
Dom Orione percebia
profundamente que Cristo é na verdade a rocha sobre a qual se apóia todo o
universo; e Cristo, agora elevado ao céu, se faz presente e se manifesta na
Igreja, no Papa.
f) Caridade
Dom Orione é o santo da caridade. O amor que o liga
a Deus, une-o também aos homens; é um amor imenso e total[13] que
exige dele a entrega total; a postura de Dom Orione diante dessa exigência é uma
resposta generosa: todo a todos; não há dor, problema ou sofrimento que não encontre
lugar em seu coração formado à imagem do de Cristo. “Sofrimentos físicos e
morais, cansaços, dificuldades, incompreensões e obstáculos de todos os tipos
marcaram o seu ministério apostólico. Cristo, a Igreja e as almas dizia
ele são amados e servidos na cruz e na crucifixão, ou não são de modo
algum amados nem servidos" (Scritti, 68,81)”.[14]
“Quisera tornar-me o servo dos
servos, dando minha vida pelos mais pobres e abandonados;quisera ser o louco de
Cristo, viver e morrer de loucura de amor pelos irmãos.Amar sempre e dar a vida
cantando o amor! Despojar-me de tudo! Semear caridadeao longo de meus
passos...”[15]
As Constituições dos
Religiosos de DomOrione, fazendo suas essas aspirações do Fundador, assim se
exprimem:
“Dedicamo-nos aos
pobres e necessitados e queremos:
- considerar
um privilégio servir Cristo nos mais abandonados erejeitados, porque no
mais humilde dos homens brilha a imagem de Deus;
- acompanhar
os pobres em suas ascensões e promoção humana e social, assumindo também
sua condição;
- ajudar os
pobres e indefesos a conseguir sua inserção plena no convívio social, pois
'toda corrente que tira a liberdade dos filhos de Deus tem que ser rompida;toda
exploração do homem pelo homem deve ser abolida em nome de Cristo; nosso campo
de ação é a caridade, mas nada excluído que seja a verdade e a justiça; é preciso
praticar a verdade e a justiça na caridade”;[16]
- fazer os
pobres protagonistas de sua história, valorizando seus dons e capacidades,seus
costumes e sua religiosidade...;
- atrair os
filhos do povo, pela educação cristã da juventude, para serem renovadores da
sociedade; abre-se um horizonte novo, surge uma nova consciência social à luz
da nova civilização cristã, sempre geradora de progresso e sempre filhado
Evangelho”;[17]
- consagradas
totalmente a Deus na caridade, só desejosas de amá-lo e servi-lo nos pobres que
são os mais queridos do seu coração e os nossos irmãos prediletos,
‘inclinamo-nos com caridosa doçura à compreensão dos pequenos, dos pobres, dos
humildes (D.O. appunti, 1939);[18]
- as
obras de misericórdia, às quais nos comprometemos com Voto, são sinais visíveis
que tornam-se um meio pedagógico apropriado, digno de crédito e eficaz para dispor
e abrir as pessoas a acolher o Evangelho.[19]
g) Espírito de família
15. Com palavras, mas sobretudo com o testemunho de vida,Dom Orione quis
formar uma verdadeira família. Narra um ex-aluno: Desde o primeiro dia
Dom Orione deu à casaum clima paterno-familiar, baseado na participação, na
persuasão, mas sobretudo no seu testemunho de vida... Ele participava dos
momentos de recreação, queria que todos estivessem envolvidos, (…) de vez em
quando chamava um de nós para conversar, perguntava sobre nossos projetos,
sobre os fatos da vida, dava conselhos: transmitia ao coração um grande
sentimento de esperança. Tinha não somente um coração de pai, se era necessário
tinha também um coração de mãe.[20]
h) Alegria
“Há uma alegria,
disse Santo Agostinho,que não é de quem vive da terra para a terra, mas, sim
daqueles que amam e servem o Senhor e a Igreja com amor. Essa alegria sois vós,
ó Senhor nosso Deus! Essa é a felicidade: gozar de Vós, em Vós e por Vós”.[21]
“A perfeita alegria não está senão na plena doação
de si mesmo a Deus e aos homens, a todos os homens, aos mais sofredores e aos
física ou moralmente deficientes”.[22]
“Sempre alegres no Senhor; com alegria grande,
espalhando bondade e serenidade em todos os nossos caminhos e no coração de
quantos encontrarmos”.[23]
i)
Criatividade e audácia
17. Dom Orione é homem de grande criatividade, procura sempre novos
caminhos, por vezes surpreendentes, para atingir seus objetivos.“Para atrair
os povos e a juventude à Igreja e a Cristo, é preciso marchar à
frente dos tempos e dos povos e não na rabeira, e não ser arrastados”.[24]
j) Uma vida
simples
Dom Orione que a
todos encantou com sua santidade, com sua capacidade de organizador, com suas
obras de bem, nunca perdeu o sentido cristão da humildade.
“Vivamos como
piedosos e bons religiosos e a Divina Providência se servirá de nós, seus
humildes trapos e seus filhos”.[25]
l) Disponibilidade
para o serviço
“Trabalho,
Trabalho, Trabalho! Nós somos filhos da fé e do
Trabalho. Devemos querer ser os apóstolos do
Trabalho e da fé. Devemos correr sempre para trabalhar e trabalhar
sempre mais”. [26]
Esse espírito de
trabalho Dom Orione o aprendeu em sua casa, da sua Mãe Carolina, desde quando a
acompanhava catando espigas nos trigais e de seu Pai Vitório, juntando-
se a ele no serviço
de calceteiro.
O olhar de Deus é
como um orvalho que fortifica, é como um raio luminoso que fecunda e faz
crescer: trabalhemos entãosem fazer barulho e sem trégua, trabalhemos sob o
olhar de Deus, somente de Deus![27]
[1] João
Paulo II, Homilia de João Paulo II no dia daBeatificação de Dom Luís
Orione, Irmã Maria Anna Sala e Bartolo Longo,Basílica Vaticana, Cidade do
Vaticano, 26.10.1980, cfr. «L’Osservatore Romano»,27-28.10.1980, pp. 1-2.
[2] No
Documento MutuaeRelationes que trata das relações
Mútuas entre Bispos eReligiosos, o Carisma dos Fundadoresé definido
como uma experiência do Espírito, transmitida aos próprios
discípulos para ser por eles vivida, aprofundadae sempre mais desenvolvida em
sintoniacom o Corpo de Cristo em crescimento perene (n. 11).
[3] Da "L'Opera della Divina
Provvidenza", Ano IX, N° 5,Tortona, marzo 1910, p. 2.
[4] João
Paulo II, Domingo 16 de maio - Homilia do Santo Padre no
dia da Canonizaçãode Dom Orione«L’Osservatore Romano», 16.05.2004,p.
8.
[5] Gal
2,20.
[6] Cf
Jo.3,16; 1Jo. 4,16; 1Jo. 4,11
[7] Lett.
II, 480.
[8] Lett.
I, 71.
[9] Lett.
II, 454.
[10] Lett.
II, 478.
[11] Lett.
I, 391.
[12] Lett.
I, 449.
[13] João
Paulo II, Homilia de João Paulo II no dia da Beatificação de
DomLuís Orione, Irmã Anna Sala e Bartolo Longo,Basílica Vaticana, cidade do
Vaticano, 26.10.1980, «L’Osservatore Romano»,27-28.10.1980, pp. 1-2.
[14] João
Paulo II, Domingo 16 de maio - Homilia do Santo Padre no
dia da Canonizaçãode Dom Orione«L’Osservatore Romano», 16.05.2004,p. 8
[15] Dom
L. Orione, Em nome da Divina Providência,(31-08-1931).
[16] Scritti
di Don Orione 81, 69 e 80, 203
[17] Constituições
dos Filhos da DivinaProvidência, n° 119.
[18] Constituiçoes
das PIMC Art. 43; cfr. PAI, pp.22-23
[19] Constituiçoes
das PIMCArt. 46.
[20] Nos
passos de Dom Orione, São Paulo, 1997, p. 88.
[21] Lo
spirito di Dom Orione, Venezia 1941, p.66.
[22] (25-02-1939;
Em nome da DivinaProvidência).
[23] Lett.
II, 501.
[24] Lett.
I, 251.
[25] Lett.
II, 238.
[26] Lett.
I, 251.
[27] Pagina
autobiografica, dall’Opera della Divina Provvidenza, Anno II,N° 6, Tortona, 3 de
setembro de 1899.
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