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Feuerbach tinha razão?

Por Clérigo Renaldo Elesbão, religioso orionita estudante de Teologia em Belo Horizonte (MG)

 

Percebemos atualmente na vida cristã uma crise. Essa remete a forma como os cristãos estão vivendo num mundo nihilista[1]. Ou seja, mundo onde os valores já não valem quase nada ou nada. Por que? Porque foram reduzidos a esfera meramente humana. Disso segue que a vida humana estar preza no imanentismo sem indicação a transcendência.

Feuerbach (1804-1872)[2] desejava refletir sobre o valor do homem, mas com isso ele se esbarrou com o nada do valor humano. O que isso quer dizer? Que sem Deus como fundamento e razão da vida a vida não vale a pena ser vivida. O que Viktor Emil Frankl (1905-1997) constatou entre aqueles que estavam no campo de concentração nazista, ou seja, as várias atitudes ante o sofrimento. Segundo Frankl uns se entregavam a morte e outros a resistiam com todas as suas forças espirituais. Estes, na verdade, encontravam sentido. Aqueles não. Por que? Porque tinham razões para suportar e viver através da religião.

A crença religiosa, evidentemente, não deve ser racional. Se caso for deixa de ser fé, contudo, a fé pressupõe inteligibilidade porque cremos em Deus, que é racional. É claro, que essa racionalidade é espiritual. Não como a racionalidade técnica da modernidade cuja verdade é centrada apenas no cogito como verificação de validade do mundo sensível.

Podemos formular isso da seguinte forma, a saber: Se Deus é logos, então ele não é caos, portanto, se Deus é crido o crente organiza sua fé a partir dessa imutabilidade. Se assim não fosse não haveria porque crer, pois crer é próprio dos homens e não dos animais. Estes não possuem consciência e, portanto, fé e nem religião. Afirma Lima Vaz (1921-2002) que não existe mística sem transcendência[3].

Verificamos também que podemos ser religiosos sem necessariamente temos religião. Se o homem é religioso, então ele é ser de transcendência, de abertura que possibilita um horizonte questionável cuja perguntabilidade, segundo Karl Rahner (1904-1984), poderá apontar ater o Ser, o Fundamento. Fundamento esse que nós, cristãos, dizemos ser Deus.

Bem, vamos circular nossa reflexão na pergunta inicial: se Feuerbach tinha razão quando afirmou que o Deus é criação do homem, e não o contrário. Isto quer dizer que todas a nossas ascensões místicas nos levariam a nós mesmos. Deus não passaria de uma projeção humana cuja humanização é sua divinização. Isso implica uma era imperial do psicologismo. Manifestações estas que nos impossibilitaria de transcendência. Evidentemente, o filósofo em questão centra seu pensamento num humanismo cujo escopo é o homem mesmo, ou seja, iniciara a era do antropocentrismo em aversão ao teocentrismo medieval.

Seria Feuerbach profeta? Vejamos: após Feuerbach vieram os denominados mestres da suspeita, Marx, Nietzsche e Freud. A denominação aqui aponta para o que são de fato: mestres da suspeita. Podemos tê-los como mestres? De fato, eles são suspeitos por terem em seus pensamentos uma espécie de doutrina fechada, ou seja, suas reflexões possuem críticas radicais a Deus, e portanto, a transcendência do homem.

Ora, Deus é a possibilidade de o homem ser pessoa humana porque Deus é espírito e pessoa. Tal relação implica numa formação humana. Eles porém pensavam o contrário. Nietzsche declarou a morte de Deus e da metafísica. Afirmara, por meio da ideia de super-homem, que o homem devia se libertar de tudo o que lhe dominava. Agora, o homem é o senhor. Freud dizia, por sua vez, que Deus era a infantilidade da razão[4]. Associava a religião e suas práticas a criança desprotegida de um pai. A maioridade racional seria a libertação dessa neurose infantil. E Karl Max via a religião como o ópio do povo. Este deveria lutar pela sua ascensão social a fim de assegurar sua sobrevivência. Os mestres das suspeitas, juntamente com Feuerbach, tinham razão a afirmarem que Deus não passa da projeção do homem e que teologia é antropologia?

Estaria Feuerbach correto quando vemos atualmente certa substituição do encontro com Jesus Cristo a um encontro com uma experiência psicológica (subjetivista) que a princípio poderia ser uma “cura” para melhor seguir Jesus? Não é isso que estamos vendo nos nossos encontros e retiros, ou seja, um exagero de análise psicologia em vez da analise bíblica? Não trocamos a mente de Jesus (suas ações e projetos) pelas nossas mentes? Não estamos precisando de um encontro verdadeiro, uma metanoia, que nos ajude a deixar o cântaro como outrora fez a Samaritana? Quantos momentos de encontro verdadeiros possibilitamos, com Jesus, nos nossos encontros vocacionais, retiros e reuniões?

Existem retiros cuja temática é reduzida a análise psicológica[5]. Nossos óculos advém de Jesus ou de Freud? O que Freud diria de um religioso que lhe vem fazer análise? Vejamos o que Freud diria. Você é infantil. Deus é projeção da vontade de um pai que idealiza cujo complexo de Édipo não foi bem resolvido. Com uma abordagem direta do inconsciente tentaremos resolver esse estado infantil.

Sendo assim, fica a pergunta: Convidaríamos Freud para participar de nossos encontros vocacionais para verificar a vocação dos vacacionados? Ou o convidaríamos a pregar um retiro? Bem, a psicanálise tem seu valor. Isso é inquestionável. Se o homem cristão não mudar a partir do encontro com Jesus não podemos colocar esse problema apenas numa ciência cuja via é limitada não incluindo a esfera espiritual. Esta sabemos que é determinante e que o homem afirma Edith Stein (1891-1942)[6] não acaba sua formação enquanto estiver vivendo. Esta é a possibilidade de liberdade do homem. O homem não nasceu pronto e nem deve ficar pronto até efetivar sua existência em sua completude. O animal nasce pronto, o homem tem que se ir fazendo[7].

O que se quer dizer aqui é se Feuerbach tinha razão ao afirmar que não nos encontramos com Jesus, mas com nossa imaginação, a psique. Seria uma saída a crise religiosa atual investir na análise psicológica? Ou deveríamos reler a proposta do projeto da CNBB (2004-1900) de suscitar um encontro profundo com Jesus Caminho, Verdade e Vida (Jo 14, 6)? A quem servimos? Jesus Cristo. Se é Jesus ele não é suficiente para mudamos de verdade? Ou estamos fazendo do seguimento de Jesus Cristo um seguimento meramente humano fundado no equilíbrio emocional de membros institucionalizados para melhor trabalhar? Onde estar a literatura mística de João da Cruz, Tereza de Àvila, os exercícios espirituais de Santo Inácio ou os escritos dos nossos fundadores (São Luís Orione, por exemplo)? Eles dão conta da complexidade do homem? Se sim porque não os usamos?

Há, de fato, uma concepção que a psicologia, hoje, possui aspecto messiânico, de que tal disciplina pode salvar o homem atual. Isso se dar pela sua eficácia quando é bem conduzida. Contudo, quando ocorre o contrário pode levar certo reducionismo com implicações absolutas de uma área da ciência.  Se o homem fosse bipartido, ou seja, corpo e psique, então a psicologia abarcaria o homem e poderia salvá-lo, mas como ele é tripartido, de forma unitária, isto é, corpo, psique e espírito, então algo espiritual pode fazer com ele seja o que deves ser: pessoa humana.

Os que aderem aos mestres da suspeita na sua mais radical reflexão serão levados consequentemente ao nihilismo. Há, casos engraçados de alguém dizer que gosta de um ou duas frases ou até livros, contudo se absorve profundamente essas doutrinas as doutrinas o absorverão. Isto se dar pela consciência de um vazio existencial. Eles pregam os desvalores cristãos. Tudo e todos estão sob suspeitas. Quem resistiria as objeções de Feuerbach, a profundidade esvaziada de tudo de Nietzsche, as análises de Freud e as suas críticas a fé? Nem Pedro, Tiago, Mateus e pior ainda Judas Iscariotes e nem Jesus Cristo. E você?

Quem conhece Freud, por exemplo, sabe que ele fundamentou sua doutrina no regresso ao inconsciente e o homem não sai de lá nunca. Quem não concorda com essa posição deveria ler O futuro de uma ilusão e O mal-estar na civilização cujas reflexões são profundamente contraditórias e sem piedade em relação a religião. Esta é concebida como a grande neurose e que a civilização a curará, mas está o frustra. O motivo é simples: Freud pensava que o conhecimento seria a libertação da religião por causa dos seus valores, mas descobre que a civilização também propõe regras. Isso é contrário ao princípio do prazer e, por isso, o homem teria que renunciar[8].

Deus criou o homem a sua imagem e semelhança e não o contrário. Acreditas nisso? Ou será que Feuerbach profetizou o que ocorreria no futuro cuja sorte caiu sobre nós?

Portanto, a religião é a condição de o homem poder ser o que deve ser: pessoa humana. A transcendência é fruto da relação espiritual. Conter isso é reduzir o homem a categoria de animal ou deixa-lo na imanência. A psicologia é uma área apenas. O homem é complexo e uma ciência não poderá dizer que é o homem. Engraçado até agora ninguém conseguiu dizer quase nada. Aliás nenhuma ciência sozinha poderá, mas todas juntamente com a teologia e a experiência de Jesus Cristo podem mapear, entre penumbras, a alma humana.  Há no interior mais íntimo do homem um lugar secreto onde mora Deus e a liberdade humana. É uma tentação nossa querer navegar por mares insondáveis. Mas, será que Feuerbach tinha razão? De quem suspeitar afinal?



[1] Cf. CARRARA, Paulo Sérgio. Itinerarium mentis in Deum per hihilum: O niilismo como desafio ao cristianismo. Perspectiva Teológica. Belo Horizonte. Ano 44, número 122, p. 53-68, Jan/Abr 2012. 

[2] Ludwig Andreas Feuerbach foi um filósofo alemão. Feuerbach é reconhecido pela teologia humanista e pela influência que o seu pensamento exerce sobre Karl Marx.

[3] Idem.

[4] “[...] ‘a neurose obsessiva como a contrapartida patológica da formação de uma religião, e a descrever a neurose com uma religião individual e a religião como uma neurose obsessiva universal”. RIZZACASA, Aurelio. Psicanálise e experiência religiosa. p. 552. 

[5] Estamos, sem dúvida, sendo influenciado por esse pensamento, inclusive na vida religiosa. O papa Francisco no encontro no Brasil, por ocasião da JMJ (2013) no RJ, com a Comissão de Coordenação do CELAM no Centro de Estudos do Sumaré disse de uma espécie de um psicologismo na vida cristã como “substrato” ao seguimento de Jesus Cristo, a saber: “A ideologização psicológica. Trata-se de uma hermenêutica elitista que, em última análise, reduz o ‘encontro com Jesus Cristo’ e seu sucessivo desenvolvimento a uma dinâmica de autoconhecimento. Costuma verificar-se principalmente em cursos de espiritualidade, retiros espirituais etc. Acaba por resultar numa posição imanente autorreferencial. Não tem sabor de transcendência, nem, portanto, de missionariedade”. PAPA FRANCISCO. Palavras do Papa Francisco no Brasil. SP: Paulus, 2013. p. 140.

[6] Freud pensa o homem como ser psíquico somente. Contudo, o homem é pessoa, ou seja, é livre e espiritual. E por causa dessa abertura ele pode e deve ser visto na sua dimensão espiritual a fim de garantir sua liberdade. A pessoa humana tem uma estrutura pessoal. Nesse sentido, Stein afirma que “es próprio de la persona humana apuntar a lo que se encuentra fuera de ella misma”. STEIN, Edith. La estructura de la persona humana. La traduccióndelalemán por José Mardomingo. Madri: Espiritualidad, 1998.

[7] Somente a pessoa humana tem em si mesma a condição constitutiva de ir se tornando pessoa através da empatia como percepção do outro, apreensão e compreensão de sua vida interior. Isso corrige o eu numa implicação intersubjetiva possibilitando numa comunidade densa de sentido humano. O indivíduo assim se humaniza e promove a humanização. Ver mais sobre empatia, a saber: FARIAS, Moisés Rocha; ALMEIDA, Renaldo Elesbão de. A empatia como condição constitutiva da pessoa humana em Edith Stein. Revista São Boaventura v.7, n. 1, jan-jun. 2014. p. 69-86.

[8] O bem nos atrai. Não é o desejo que nos lança ao bem, mas o contrário. Ele de certa forma se dá a nós. “... o sujeito não é o elemento determinante: o bem não é o resultado de nosso desejo, mas antes desejamos algo porque ele é bom, e isso é um elemento fundamental que distingue o ser humano de outros entes do mundo, por exemplo, do ente puramente natural que visa a tudo em função de sua necessidade devoradora”. OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Antropologia filosófica contemporânea: Subjetividade e inversão teórica. São Paulo: Paulus, 2012, (coleção filosofia) p. 198.  

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